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Questão 1 de 4Q1726105Q3 da prova
A mulher sozinha Por Maria Julieta Drummond de Andrade
Era magra e estava sempre com o mesmo vestido rasgado. Usava chinelos de feltro, velhíssimos. Ela própria parecia velhíssima, embora de perto mostrasse, sob a sujeira e as rugas, um rosto que era apenas maduro, gasto pela miséria. Acostumei-me a vê-la sentada, de manhã e de tarde, naquele canto, sobre o cimento cheio de poeira. Os que entravam apressados na igreja praticamente a ignoravam e só reparavam nela depois da missa, quando saíam devagar. Passando diante da igreja duas vezes por dia, certa cumplicidade criou-se entre nós duas: quando eu tinha tempo e ela não estava agradecendo as esmolas, conversávamos. Contou-me que vivia no outro extremo da cidade e que fazia uma longa caminhada, cedinho, até a estação, para tomar o trem, e outra até o lugar onde nos encontrávamos. Não me explicou por que escolhera um bairro tão distante para mendigar e nada lhe perguntei a respeito, receando lhe ferir a intimidade ou introduzir-me em seu segredo. Há uns dois meses encontrei-a radiante, com um pequeno vulto escuro entre os braços: era uma cachorrinha recém-nascida, Maria Isabel, que a mulher ninava e acarinhava com deslumbramento. Disse-me que a recolhera de uma lata de lixo e a batizara logo. Da sacola de palha que sempre trazia consigo retirou uma garrafa d'água e uma colherinha e, com infinita delicadeza, foi entornando algumas gotas na goela da bichinha, que gania baixo, ainda de olhos fechados. A mulher não desgrudava os olhos dela e, remoçada pela alegria e atenção que a cachorrinha ofertava e exigia, deu até para cantar uma música confusa e antiga. As duas não apareceram na última semana. Até que ontem o jornaleiro, compungido, contou-me uma das histórias mais tristes que já ouvi. Maria Isabel se transformara numa vira-lata peluda, encantadora, de focinho redondo e olhos de açúcar. Tão linda, que um malvado achou de roubá-la. A mulher passou a noite atrás da cadela, de um lado para o outro da estação, chorando, gemendo, chamando-a por nomes doces e implorantes. Depois sentou-se num banco e ali ficou imóvel, em silêncio, até o dia clarear. (Disponível em: cronicabrasileira.org.br/cronicas/17849/a-mulher-sozinha – texto adaptado especialmente para esta prova).
Analise as assertivas abaixo sobre o texto: I. A situação comunicativa do texto envolve elementos de um texto do gênero narrativo. II. O pronome “la”, em “roubá-la” (l. 22), refere-se à Maria Isabel. III. A conjunção “Até que” (l. 19) estabelece uma relação de tempo, indicando que a narrativa avança para um momento posterior. Quais estão corretas?
A mulher sozinha Por Maria Julieta Drummond de Andrade
Era magra e estava sempre com o mesmo vestido rasgado. Usava chinelos de feltro, velhíssimos. Ela própria parecia velhíssima, embora de perto mostrasse, sob a sujeira e as rugas, um rosto que era apenas maduro, gasto pela miséria. Acostumei-me a vê-la sentada, de manhã e de tarde, naquele canto, sobre o cimento cheio de poeira. Os que entravam apressados na igreja praticamente a ignoravam e só reparavam nela depois da missa, quando saíam devagar. Passando diante da igreja duas vezes por dia, certa cumplicidade criou-se entre nós duas: quando eu tinha tempo e ela não estava agradecendo as esmolas, conversávamos. Contou-me que vivia no outro extremo da cidade e que fazia uma longa caminhada, cedinho, até a estação, para tomar o trem, e outra até o lugar onde nos encontrávamos. Não me explicou por que escolhera um bairro tão distante para mendigar e nada lhe perguntei a respeito, receando lhe ferir a intimidade ou introduzir-me em seu segredo. Há uns dois meses encontrei-a radiante, com um pequeno vulto escuro entre os braços: era uma cachorrinha recém-nascida, Maria Isabel, que a mulher ninava e acarinhava com deslumbramento. Disse-me que a recolhera de uma lata de lixo e a batizara logo. Da sacola de palha que sempre trazia consigo retirou uma garrafa d'água e uma colherinha e, com infinita delicadeza, foi entornando algumas gotas na goela da bichinha, que gania baixo, ainda de olhos fechados. A mulher não desgrudava os olhos dela e, remoçada pela alegria e atenção que a cachorrinha ofertava e exigia, deu até para cantar uma música confusa e antiga. As duas não apareceram na última semana. Até que ontem o jornaleiro, compungido, contou-me uma das histórias mais tristes que já ouvi. Maria Isabel se transformara numa vira-lata peluda, encantadora, de focinho redondo e olhos de açúcar. Tão linda, que um malvado achou de roubá-la. A mulher passou a noite atrás da cadela, de um lado para o outro da estação, chorando, gemendo, chamando-a por nomes doces e implorantes. Depois sentou-se num banco e ali ficou imóvel, em silêncio, até o dia clarear. (Disponível em: cronicabrasileira.org.br/cronicas/17849/a-mulher-sozinha – texto adaptado especialmente para esta prova).
Considerando o período “A mulher passou a noite atrás da cadela, de um lado para o outro da estação, chorando, gemendo, chamando-a por nomes doces e implorantes” (l. 22-23), analise as assertivas abaixo: I. O período é composto por subordinação. II. Os termos “chorando”, “gemendo” e “chamando-a” exercem função sintática de objeto direto, complementando o verbo "passar". III. A expressão “por nomes doces e implorantes” atua como complemento nominal de “chamando-a”. Quais estão corretas?
Assinale a alternativa que classifica corretamente as palavras destacadas no trecho abaixo e a função que desempenham no texto: “Era magra e estava sempre com o mesmo vestido rasgado. Usava chinelos de feltro, velhíssimos. Ela própria parecia velhíssima, embora de perto mostrasse, sob a sujeira e as rugas, um rosto que era apenas maduro, gasto pela miséria.”
Assinale a alternativa que classifica corretamente a oração subordinada presente no período abaixo: “Embora estivesse chovendo, decidimos ir ao parque.”