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Questão 1 de 5Q1447641Q1 da prova
Eu sei, mas não devia
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fun-
dos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar
para fora. E, porque não olha para fora, logo se acos-
tuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não
abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo
a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol,
esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado
porque está na hora. A tomar o café correndo porque
está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode
perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque
não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é
noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A
deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a
guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que
haja números para os mortos. E, aceitando os núme-
ros, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não
acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia
da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir
no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pes-
ssoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado
quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o
de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com
que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer
fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais
trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que
pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A
abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão
e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir pu-
blicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado,
lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de
ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de
ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz
natural. Às bactérias da água potável. À contaminaçãoda água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma
a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a
temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé,
a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afas-
tando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta
acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na pri-
meira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está
contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto
do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola
pensando no fim de semana. E se no fim de semana
não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e
ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza,
para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas,
sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta,
para poupar o peito. A gente se acostuma para pou-
par a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta
de tanto acostumar, se perde de si mesma. (COLA-
SANTI, Marina. Eu sei, mas não devia. Rio de Ja-
neiro:Rocco,1995)
Pelos comentários feitos pela voz narrativa, pode-se
concluir corretamente que a crônica:
Eu sei, mas não devia
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fun-
dos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar
para fora. E, porque não olha para fora, logo se acos-
tuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não
abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo
a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol,
esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado
porque está na hora. A tomar o café correndo porque
está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode
perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque
não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é
noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A
deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a
guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que
haja números para os mortos. E, aceitando os núme-
ros, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não
acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia
da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir
no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pes-
ssoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado
quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o
de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com
que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer
fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais
trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que
pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A
abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão
e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir pu-
blicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado,
lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de
ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de
ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz
natural. Às bactérias da água potável. À contaminaçãoda água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma
a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a
temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé,
a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afas-
tando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta
acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na pri-
meira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está
contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto
do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola
pensando no fim de semana. E se no fim de semana
não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e
ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza,
para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas,
sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta,
para poupar o peito. A gente se acostuma para pou-
par a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta
de tanto acostumar, se perde de si mesma. (COLA-
SANTI, Marina. Eu sei, mas não devia. Rio de Ja-
neiro:Rocco,1995)
O texto de COLA-
SANTI inicia cada parágrafo com a expressão "A
gente se acostuma", esse tipo de recurso é conhe-
cido como ANÁFORA, elemento que se caracteriza
pela repetição de uma ou mais palavras no início
de versos, orações ou períodos. O resultado deste
recurso para a compreensão global do texto sugere:
Eu sei, mas não devia
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fun-
dos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar
para fora. E, porque não olha para fora, logo se acos-
tuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não
abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo
a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol,
esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado
porque está na hora. A tomar o café correndo porque
está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode
perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque
não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é
noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A
deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a
guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que
haja números para os mortos. E, aceitando os núme-
ros, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não
acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia
da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir
no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pes-
ssoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado
quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o
de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com
que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer
fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais
trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que
pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A
abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão
e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir pu-
blicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado,
lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de
ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de
ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz
natural. Às bactérias da água potável. À contaminaçãoda água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma
a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a
temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé,
a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afas-
tando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta
acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na pri-
meira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está
contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto
do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola
pensando no fim de semana. E se no fim de semana
não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e
ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza,
para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas,
sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta,
para poupar o peito. A gente se acostuma para pou-
par a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta
de tanto acostumar, se perde de si mesma. (COLA-
SANTI, Marina. Eu sei, mas não devia. Rio de Ja-
neiro:Rocco,1995)
Marque a opção em
que a palavra destacada está incorretamente apli-
cada:
Observe o frag-
mento a seguir e depois marque a opção em que to-
das as palavras estão acentuadas pela mesma regra
da palavra destacada:
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na
infindável catarata dos produtos.
Estabeleça a relação
entre os termos destacados da oração, em seguida
marque a opção CORRETA:
I.A gente se acostuma a ser instigado;
II. Se o trabalho está duro;
III. A não colher fruta no pé;
IV . Tudo é muito fácil ;
V . Não achamos o outro inteligente ;
VI.Adoramos flores.
( ) verbo transitivo
( ) sujeito simples
( ) pred. verbo-nominal
( ) pred. nominal
( ) objeto direto
( ) verbo de ligação.